terça-feira, setembro 06, 2016

"Fulana, tenha calma".


Mas você não está nervosa. Sequer irritada. Remotamente perturbada. Ou aparenta qualquer expressão facial que demostre isso.


Parece academicismo pensar em teóricos e filósofos todos os dias na fila do pão, mas quando reflito sobre essa fala me vem a cabeça Foucault e o processo de docilização do corpo social. Ainda que não tenha abordado a perspectiva do cotidiano de maneira direta, ele ajuda a pensar os dispositivos de controle e poder que nos cercam. E como eles são sutis, invisíveis, disfarçados, faceiros. Delicados como uma sugestão, eficazes na mensagem imperativa, entre a pena, o cuidado e a força.

Assim parece, pois quando mulheres, negros, indígenas, minorias, etc. são qualificados negativamente como frágeis, incultos, ignorantes, são imediatamente rebaixados e redimensionados a categoria a ser controlada (ao dispor de tais mecanismos), pois conter um "corpo" é deixar/impedir que "outro" avance, tome partido e decisões.



Fulana, tenha calma. Que calma é essa? De onde vem a calma, como diria a música? A calma é um constructo implícito de controle? Quem pede calma já dá a tônica da ação.
Contenha-se antes de ser contido.

Algoritmos Nostálgicos

Não sou lá muito fã de séries/novelas. Acho cansativo me fidelizar a determinado conteúdo por horas, seja por indicação de amigos ou por possuir temática interessante. O interesse surge por diferentes motivos: a necessidade de refletir sobre certo tema; um escape divertido; um romance água com açúcar pra adoçar a vida; uma analise pedagógica e critica da ação humana. Independente da língua ou cultura, gosto de assistir a histórias. Isso me fez ver conteúdos extremamente diversificados como: "W" (Coreia do Sul), "Sherlock" (Inglaterra), "Lalola" (Argentina), "Além do tempo" (Brasil), "Mr. Robot" (EUA), "As mil e uma noites" (Turquia), "Windeck" (Angola), "Danger 5" (Austrália), etc.

Nas últimas semanas, dei a mão a palmatória e decidi assistir duas indicações de series. E não foi preciso assisti-las até o fim para me dar conta de que essas, entre outras, baseadas em algorítimos produzidas por plataformas de video on demand, muitas vezes preveem apenas repetições de tendências, não necessariamente inovações do ponto de vista de contação de história. O tal "risco zero" de perdas de audiências levou milhares de indivíduos aos cinemas para ver filmes como "Star Wars", "Jurassic Park" e tantos outros a ver "Stranger Things" e "The Get Down" (as séries que assisti), catapultando-os a fenômenos de uma reprodução que leva ao público reflexões, história e conteúdos condensados por músicas marcantes, referências iconográficas explicitas e inserções pontuais a temas da atualidade. Vistos de perto, se enquadram no terreno seguro da homenagem, entre o reboot, a nostalgia, a relevância e os gostos de determinadas faixas de audiência.

Pego como exemplo "Stranger Things", que talvez seja mais década de 1980 que a própria década, com crianças que pareciam ter saído de "Os Goonies" e "Conta Comigo"; com a figura emblemática do professor de bigode e o policial canastrão. Parece uma daquelas histórias entre o terror e a fantasia de John Carpenter e Steven Spielberg, dos filmes de estética high school a la John Hughes, em que até a imagem marcante de Molly Ringwald aparece encarnada na personagem de Barbara Holland, se misturando ao som memorável de The Clash, Toto e Joy Division.
Sobre referências filmicas, Tarantino é mestre em mistura-las de maneira inteligente e instigante. Ele sabe exatamente como fazer filmes sobre filmes. Porém até ele parece ter cansado da técnica, decidindo aprofundar temáticas que antes não eram contempladas, dando agora apenas leves e certeiras pinceladas de influências cinematográficas em suas películas. 
Não me levem a mal, os conteúdos citados são ótimos. Apenas não sei quanto tempo a tendência algorítmica fidelizadora perdurará, durante quanto tempo a nostalgia e a magia irá funcionar. Durante quanto tempo a Nostalgia será apenas Nostalgia.

Eu já saquei a onda e admito: mal começou e já cansei.
Prefiro mudar de canal e buscar o imprevisível.


sexta-feira, junho 24, 2016

Fontes

As fontes falam, conversam com o pesquisador de diversas maneiras. Um leitura primária dá conta de aspectos superficiais: o que está escrito, como está escrito, para quem, por quem, quando, além do contexto (social, politico, econômico) em que foi produzido. Em uma segunda leitura, o não dito, o que falta ser mencionado, a opção de abordar tal coisa/objeto/pessoa ao invés de outras (que também poderiam ser importantes para o contexto): as ausências, forçadas ou não. Essa ausência inclui também o espaço para falsificações, incongruências, "mentiras", "verdades". A terceira, o momento da descoberta enquanto documento, o seu contexto e sua posterior leitura. E finalmente a quarta, uma ação fluída e sempre constante, que são as variadas (e as variações de) leituras e consumos das representações segundo o tempo, o espaço, a cultura, a vida social, o local de fala, o interesse pelo objeto e seus objetivos de análise.
O facebook é, sem dúvida, um grande documento social a ser explorado em toda a sua complexidade e diversidade. Ele, como fonte digital expressa suas singularidades, mas não deixa de exibir o caráter "clássico" atribuído as fontes: a possível captação e permanência em um espaço, assim como a possibilidade de contar algo, de conversar com o pesquisador. Somos em close caption, a cores, e em movimento um documento: Aqueles que postam fotos, avatares, comentários e pensamentos, aqueles que postam pouco ou quase nada, os que não postam, os que só observam, os que não se incomodam, os que não possuem. E/ou todas as combinações possíveis próprias dessa rede.
Todos possuem algo a dizer, e estão dizendo. Mesmo não dizendo nada.

quinta-feira, junho 02, 2016

Lemonade

Assistindo o clip "Formation" me detive em alguns aspectos técnicos da representação do figurino de Beyoncé: Perpassando todas as cenas, os cabelos da cantora expressam o empoderamento negro, seja com tranças, blacks ou penteados que, de maneira geral, representam (fazem refletir sobre) a iconografia da mulher negra.
O uso do vestido preto com referências estilizadas carrega elementos atemporais da moda negra norte americana que atravessa gerações até os dias atuais. Em frente a porta de uma casa Beyoncé é a figura central no limiar entre o público e o privado: a vestimenta em luto e em luta. Pelo fim do controle masculino que circunda a mulher negra sob o espaço da casa, ela dá um passo a frente e desfoca o passado e os homens. A História a ser contada será centrada na figura feminina. O limite espacial também pode ser analisado como comentário a ação que se desenrolará: o fim do sofrimento e o começo da luta pelos espaços é referendado por homens negros, jovens e idosos.
O uso do vermelho (derivados em traços brancos) em duas cenas: um interna, em um corredor - a meio caminho; em cima de um carro de policia parcialmente submerso. O vermelho na cinematrografia geralmente é associado a morte, ao sangue - derramado, a ser derramado e ao sofrimento. Muitas vezes também é usado para expressar paixão. Ambos parecem fazer sentido nos ambientes citados: O sofrimento de jovens negros é calado/afogado por catástrofes humanas e naturais. A mulher negra vitima de violências há séculos está a meio caminho de deixar a casa que aprisiona e atingir a rua, expressando paixão e temor pela própria vida. A dança é uma expressão dessa liberdade. A roupa é a fusão entre passado e presente.
O uso da vestimenta em tons metalizados/cinza com traços vermelhos e pretos em uma piscina vazia representaria um caminho já traçado, um objetivo a ser atingido: não há como afogar a voz negra e feminina. Ainda que haja traços de violência simbólica (vermelho/preto), uma zona mista é um claro aviso de que as barreiras precisam e serão ultrapassadas: não há água na piscina, não há como deter a luta e a liberdade do corpo da mulher, em continuo movimento de dança e libertação.
O branco (associado a tons pastéis) usado em três cenas remete a conquista da liberdade e a paz (interior ou exterior), tanto em contexto público quanto no privado: Beyoncé abre os braços vestida em peles brancas pela janela de um carro enquanto ele gira: O espaço público de homens/mulheres brancos também é o espaços público de homens/mulheres negras, em liberdade e sem medo. O olhar de Beyoncé é inegável ao expressar o desafio a negação dessa luta/conquista. Na casa, a cantora é mostrada sozinha e rodeada por um grupo de mulheres, vestidas em trajes com elementos amarrados a todas as épocas da história norte americana, com olhares desafiadores frente as conquistas também em espaços internos. Ela é dona de seu próprio espaço. A liberdade da escolha está dada, independente do local em que se configura a presença feminina.
Enquanto um sonho de liberdade é colorido e transparente (representado em uma rápida cena), a realidade é pragmática. Assim o jeans (e suas derivações de lavagens) fecha a galeria iconográfica como roupa e expressão multiuso: com a liberdade em mãos, os usos configurados pelo corpo feminino são múltiplos, variados e não possuem gênero e idade. O jeans é a liberdade per si (a dança também).
Lemonade é um belíssimo manifesto visual e musical sobre feminismo negro, negritude, preconceito, padrões estéticos, violência contra negros, empoderamento social, cultural e financeiro de negros. Um álbum necessário, obrigatório. Um obra de arte fundamental, paradigmal.

quinta-feira, julho 04, 2013

História.


Gostaria de dedicar alguns momentos para comentar sobre um tema que não tem saído de minha cabeça, dado o efeito dos últimos acontecimentos. Não comentarei sobre protestos e suas consequências midiáticas, políticas, econômicas e sociais. Minhas reflexões, ainda que superficiais e imediatas, tentam compreender de que formas os significados da palavra História vem sendo utilizado de maneira sub-reptícia (na sua expressão mais invasiva, quase infiltrada) e quase esgarçada. Esses usos, como consequência provável, levam ou poderiam levar a diversas e pouco aprofundadas noções que tornam a palavra imprecisa, soando muitas vezes como um conceito vazio e murcho de significados das quais ela é associada em meios teóricos. 

A alguns dias atrás, postei no Facebook uma frase em que considerava o uso da palavra História um disfarce hipócrita para a explicação dos acontecimentos atuais. Além de reafirmar aqui minha opinião, adiciono mais um ideia: Além do uso hipócrita, pois usado como disfarce para conter concepções atuais, ela ainda demonstra o profundo desconhecimento do que se entende por História.

Ultimamente tenho visto surgir muitos comentários tais como: "O Brasil está fazendo História!", "Estamos, pela primeira vez em muitos anos, (re)escrevendo a História do Brasil", "Vamos mudar a História do Brasil!"

Peraí, e desde quando alguém deixou de viver neste fluído contínuo, neste espaço-tempo que se chama História? Quer dizer que antes de mobilizações de vulto e demonstrações de indignação éramos seres não históricos?! Só fazemos História quando nos tornamos e nos sentimos importantes? Quando somos percebidos por políticos e meios midiáticos?

A História é produto último do cotidiano. As relações são presididas por gestos comuns, pela rotina. É ela a sua principal produtora e mantenedora e seu principal vínculo de mudança. Não são só 15 minutos de fama não, é mais do que isso! É perceber e identificar que sempre fomos e seremos agentes sociais e que os grandes acontecimentos nascem na tranquilidade do lar e no chão da fábrica. Os 15 minutos passam e a Histórica continua...

Vejamos como olha um Historiador:
Em termos práticos, ao voltarmos os nossos olhos para a História, aquela que aprendemos desde a escola, vemos que ela muitas vezes ao longo dos anos de aprendizagem foi reduto da vitória ou derrota de grandes Homens, Nações e Instituições. Essa visão historicista e pertencente ao século XIX reverbera com força em nossos discursos, não só porque nos reportamos a uma instituição que reflete conceitos básicos, mas porque ela é reduto de um passado de conhecimentos que a partir dali tendem a ser explorados de formar a dar um espetro cada vez mais ampliado de nossa compreensão sobre o mundo.

A escola é de muitas maneiras, uma das expressões básicas do conhecimento sobre o passado. Ela é histórica, mas isso não significa que deve ou precisa permanecer como fim último, visto que a sua própria provadora, a História, vive ao som dos segundos. Assim nos damos conta, ao vermos deslocadas expressões sobre o conceito, que muitas vezes a História que aprendemos não deve estar sujeita só a um tempo, ela deve  acompanhar e estar atenta a todos os movimentos da própria História!
Esse lapso seria fruto do desconhecimento sobre o passado?! Ou seria o não desenvolvimento deste conhecimento para além das obrigações sociais? E mais: Pode possuir raízes na descontinuidade e construções das concepções do que seria História. Essa que é pensada como parte integrante da vida humana, para além das escolas, em meio ao vivemos enquanto estas palavras estão sendo lidos. 

Nossa linguagem sobre o passado (e sobre o presente) é pobre, fruto de uma conscientização socio-histórica igualmente pobre. Isso acontece muitas vezes porque não tornarmos os nossos saberes parte integrante de nossas vidas cotidianas. De acharmos que discutir nossas necessidades comunitárias e seus caracteres econômicos e políticos são coisas de nerds, politizados, esquerdistas e filósofos de botequim. Filosofar no boteco não é besteira! É um exercício social histórico! O exercício histórico não vem sendo objeto de pratica constante por diversas deficiências estruturais e orgânicas a sociedade brasileira, que assumiu a mais de 500 anos um relacionamento paradoxal  com a História. Concepções que são impossíveis de assumir nestas breves palavras, mas que talvez são elevadas a categoria de "indiferenças ideológicas",  por não obedecer a lógicas comuns as necessidades do mundo atual, sendo  incutidas em um vão murcho e amorfo, muitas vezes incoerente, por não saber exatamente do que se trata.

Usar em vão a palavra História para designar um movimento social natural ao nosso estado de relações deixa entrever o quão o papel do historiador é pouco compreendido. Esse posicionamento escamoteia as tentativas exaustivas de tantos cientistas humanos em fazerem perceberem que o nosso objeto de análise é o hoje, espelhado no passado. De que nossas relações varrem o nosso objeto e andam junto com ele, mas que ainda precisa de evitar um contato direto para não ferir o olhar. Porém, que não deixa de olhar e refletir sobre, ainda que seja de maneira cautelosa o suficiente para não ganhar fama de Mãe Diná.

Então, você quer História?! Vá! Mas vá com calma!

Ao inflar e repetir o uso da palavra História preenchendo um vazio de relações que ainda não compreendemos com toda clareza (pois pouco estamos dados ao exercício), estamos fortalecendo para que o seu conceito cada vez mais seja um saco de retalhos desconexos. Em que qualquer palavra é usada para explicar ou dar sentido a movimentos históricos, pois pode ser entendido como um movimento de homens por mudanças. Viu como soa genérico e não explica nada? Além de estar destituído de toda a carga de expressões e de possíveis concepções imbuídas? Não podemos deixar que a História se torne só mais um saco semiótico indefinido, quando ela pode ser a expressão viva, consciente e com uma posição definida enquanto meio de conhecimento específico que pensa sobre a complexidade da expressão humana em plena ação seja no passado ou no presente.

E aí eu te pergunto: Você sabe o que é História?


Menina de Pano fazendo História, desde o retalho à casa de bonecas.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Horário de Brasília, 36 graus Celsius.


Dizem os médicos que febre é sintoma de infecção. Eu estava com isso há uns tempos atrás, sabe. Fiquei doente, mas doente de um jeito diferente. O rosto estava perfeito, o corpo com saúde invejável, sem manchas esquisitas, os dentes estavam brancos. Mas lá no fundo do rosto, no canto escuro do corpo, na placa metálica da obturação, a doença se manifestava. Era esquisito. Um fraqueza, uma moleza, uma tristeza. Quem olhasse com atenção, e percebia a doença, ficava mais triste ainda. Era quase contagioso... mas uma contaminação que tinha senha na entrada, código de barras e uma porção de outros benefícios compartilhados.  Enfim, uma infecção que não saia de jeito nenhum. Isso durou um bocado, mais de um ano. Sabe aqueles ventos fortes que te pegam de surpresa e te deixam resfriado e com o nariz escorrendo durante dias? Pois bem, era uma coisa dessas que parece que durava anos. No grau das doenças, as infecções eram aparentadas, tipo... primas distantes.

Um dia eu decidi que ia me livrar dessa infecção. Não aguentava mais! A obturação já estava velha, o canto do corpo coçando. Assim não podia ficar. Comecei a ouvir música clássica, admirar galãs de foto novelas, tomar água de coco, ler revistas de moda. O projeto Xô Satanás era intenso, porque a Casa do Senhor estava interessada em outras companhias não tão más assim. Pulei, dancei, dei cambalhota, cantei, desenhei sol no chão para fazer a chuva parar e a infecção sair.
Eis que um dia, ela quis me deixar... Olhei no relógio. Eram 7 horas da noite, ninguém em casa. Ela chegou. Febre, febre, febrão. Ela estava querendo ir embora. E eu fiquei triste, acredita?! A infecção ia embora, me deixar sozinha... eu queria mesmo aquilo? Estava preparada ou não? Não tinha importância, ela tinha que sair. Remédio tomei, menina... a cama estava molhada de suor. Banho frio, água gelada... 10 horas da noite, horário de Brasília, 36 Graus Celsius. 

UFA! Acabou.

Pensa que acabou? Náda, ó... aquela era só a primeira parte. Mais tarde eu entendi que tinha que ser assim. Uma infecção de um ano não sai assim, sem mais nem menos. Né verdade? Sai em suaves prestações, sem a gente sentir no bolso. A primeira parcela tinha sido liquidada, a segunda foi cobrada alguns meses depois. Sabe como é, cada coisa de uma vez.

Muito serelepe, na condição de achar que a infecção tinha acabado, comecei a sentir um comichão bom perto do peito. Aqui, aqui desse lado aqui. Ai, que delicia. Fazia tempos que eu não sentia isso esses comichões bons. Aliás, acho que nunca tinha sentido aquilo antes. Os outros comichões batiam igual tambor, muito rápido, tão rápido que vou te ser sincera... as vezes incomodavam. Esse era diferente. Era... era um tratado de paz. Era calmo. Era quase como se fosse de outro mundo, quase divino. Era tão bom que eu não queria deixar de sentir. Ai pensei: Quero isso pra mim! Fui lá e pimba, decidi que seria permanente.

Ganhei uma febre de presente! Engraçado. Dessa vez durou o dia inteiro. Havia chegado o Adeus final, eu senti. A infecção não queria assinar o tratado de paz, decidiu então retirar suas tropas de plantão. 
A noite foi longa. Que batalha para ocupar posições estratégicas! Tudo muito bem pensado, entende? Coisa de gente inteligente, aquilo não era pra qualquer um não!

No outro dia acordei, e o horário de Brasília até se espantou dos modestos 35,5 graus Celsius. Ele estava pensando que iria dar mais... afinal, a noite foi de festa. Só sei que abri o armário, coloquei o óculos de sol e fui ver os pássaros lá fora. O comichão afagou meu peito e fez uma marquinha vermelha na minha pele. Me deu bom dia, passou pela porta e entrou na minha casa.

Acredita que continua aqui até hoje? Ainda bem.


Menina de pano, pano de Menina.

sábado, junho 16, 2012

Soma

Depois de alguns anos, algumas armadilhas armadas pelas pessoas e seus relacionamentos desanuviaram (mas não muito) as  nuvens em minha mente. Pássaros que sobrevoam a cabeça, ainda persistirão em voar constantemente sobre os relacionamentos, as cabeças e as pessoas, mas talvez o mistério que os envolve é muito menos misterioso do que aparenta.
Não sou especialista, nem grande estudiosa, sequer boa observadora. Apenas parei de olhar para os relacionamentos sociais como um mito que desloca certas pessoas de um suposto nível acima (o que é posição espacial quando falamos de algo tão subjetivo quando os homens e a sociedade? Mas vocês entenderam) das demais. Por mais que pensemos na existência classes sociais e níveis culturais, e que este fundo é objeto de estudos das políticas, obedecemos a mesma importância nas funções básicas de sobrevivência. Comemos, bebemos, choramos, dormimos, pensamos, amamos, morremos, etc. Dito isso, o véu que cai dos relacionamentos obedece o mesmo critério de posicionamento do kit de sobrevivência: Por mais que se relacionar seja uma arte política (estratégica, ideológica, democrática) ele obedece primeiramente a um senso de sobrevivência de nossos interesses em jogo.
Taí o grande furo de reportagem. Como ninguém é isento de opinião, logo, em nossas relações deixamos entrever os nossos principais interesses, mesmo que eles estejam escamoteado pelo bom mocismo, pela ganância, pelo amor, pela bondade. Infelizmente não conseguimos antever os passos do próximo, embora possamos conhecer suas reações de perto. O que na realidade, em um momento de tensão, isso não pode resultar em nada. Ou mais, pode gerar maior tensão dada uma reação inesperada. Essa é uma entre tantas reações que imprimimos nas nossas constantes trocas sociais, e que sugerem um posicionamento frente a ação do próximo. Estratégico, pois defende as crenças pessoais e coloca em xeque as questões do próximo.
Dada a base de nossas relação com o próximo, geralmente assumimos um postura de confiança desconfiada ao mesmo tempo que indicamos a compreensão, o respeito e a confiança. Os relacionamentos evoluem, mas marcas de nossas personalidades ao poucos imprimem o ritmo do arcabouço que constrói diariamente a coisa-relação. Mas... os relacionamentos exigem de nós mudanças e adaptações constantes, frente aos desafios da convivência.
Adaptar significa tentar equilibrar a esteira das emoções e das reações. Resguardar é conservar forças em um confronto de interesses. E se há confronto, há disputa. Se há disputa, há aquele(s) que vence(m) e aquele(s) que se deixa(m) vencer. Não vamos adotar um posição maniqueísta. Em uma determinada comunidade, se algo dá errado, provavelmente é porque todas as partes do acordo não tomaram suas ações com o mesmo objetivo. 
"Perder ou Ganhar" pode aguçar os nossos sentidos estratégicos. Para defender os nossos ideais ou para resguardar as nossas posições como perdedores/fragilizados ou vencedores/fortalecidos (binômios intercambiáveis). Ou tudo isso junto. Saber se posicionar é imprescindível para quem quer sobreviver no jogo das relações. Não é necessário escolher um lado, mas defender seu ponto de vista sobre os benefícios e malefícios que conduziram ao estado das coisas. Daí a ideia é se adequar a uma posição social. 

Para os que se posicionam de maneira incisiva, a sociedade cobra nossas posições até o final, mesmo que mudemos de opinião. Ainda que particularmente não pensemos de maneira maniqueísta, herdamos a infeliz defesa juidaica-cristão de ver o bem ou o mal, do certo e do errado. Mas o que entra em jogo aí, deixa de ser um posição de sobrevivência básica e passa a ser uma sobrevivência política. 
Quem será a próxima vítima agora?

Menina de pano sabe que + e - = - e que - e - = +

domingo, março 11, 2012

Medo do medo.



Uma onda de medo atravessa minhas sensações ultimamente. Mas não é qualquer medo. É um medo de raízes sociais, enterradas no mais profundo enlameado caldo cultural. Pressinto que de um momento para o outro, líderes de diferentes frentes religiosas, politicas, "ideológicas", econômicas e cibernéticas irão, como uma avalanche moralizadora, impor suas verdades, coagindo os outros através de maneiras possíveis. Através de leis, intimidações públicas, permissividade midiática, da influência do estágio avançado (e animalesco) de reprodução do capital. Através de uma sociedade ultra violenta, civilizadamente polida com um verniz selvagem - ao transportar as ações privadas para o público, com baixo senso ético, priorizando-o como visão pública do privado. Através de uma sociedade que impõe a negação ao próximo, substituindo-o por pequenas frases sem importância nos jornais, por moedas, entorpecentes (aquilo que entorpece os sentidos, o bom senso), jogando-os ao descaso, pela paranóia, pelo egoísmo, pela xenofobia e preconceito. Neste caminho que muitos de nós trilhamos, esquecendo de nós mesmos, entre a buscar pelo prazer incessante e o desespero pela vontade de vencer, de possuir cada vez mais. Insaciáveis dormentes.

Esse medo é avassalador. E não é sonho, é real e está acontecendo agora. Mas sua força, ainda não é uma onda incontrolável. É o quebra mar, em vai e vem contante.

Tenho a sensação de guardar esse medo de maneira latente, a espreita, nas sombras, esperando o momento certo para atacar. Esse medo é o eco das massas nas praças, que também sentem o rastro medo, ainda que inconscientemente, pairando no ar, logo atrás de nós. O grito por justiça, liberdade e amor que joga o medo contra o medo, vontades contra vontades, joga na nossa cara que nós somos os únicos responsáveis por produzirmos os causas e as consequências de nossas próprios medos.
Esse medo é o que conserva os poderes, que mantem dogmas, que tenta se eternizar numa vida em que a única certeza é ceder. Dar lugar, abrir espaço. Morrer. Talvez o grito, a marcha, a dor, anuncie desde já que o medo é o temor do futuro, é o orgulho em querer se conservar do desconhecido. O medo dá medo. Mas ao ve-lo empurrar homens para a aceitação, o respeito, a compreensão e o entendimento, o medo é o verdadeiro nome do progresso. Mesmo que "evoluir" seja ainda um projeto de um horizonte distante.
Por aqui, ainda lutamos, erramos, acertamos, e seguimos tentando pacientemente vencer o medo de cada dia. O santo medo de cada dia, que se converterá no remédio do amanhã.


Menina de pano mede o medo pelo nariz.