segunda-feira, novembro 06, 2017

Decote

O belíssimo videoclip de Petra Gil e Pablo Vittar "Decote" é um excelente exemplo de como o casamento entre imagem + música pode ser utilizado para uma reflexão do conteúdo visual + conteúdo da mensagem cantada.
Em tempos de cerceamento dos interesses pisco-emocionais dos indivíduos e da incompreensão de atitudes não-binárias, o clipe é um poderoso antidoto que a arte propõe para se compreender as identidades de gênero.
Comecemos pelas grandes oposições apresentadas ao longo do clip. É importante notar que não são oposições estanques: No início elas são apresentadas separadas para se fundirem e se misturarem a longo do clip. Eis as oposições: mulher/ homem drag - cores: preto/branco; azul/rosa;vermelho - formas: quadrados/círculos; listras horizontais e verticais - opacidade/ transparência. 
Pabllo aparece no começo de clip de costas, com os cabelos separando a tela negra em dois; refletido por uma luz rosa com forma circular; sob o fundo negro separado por listras brancas. Preta sob o fundo negro sem separações; refletida pela luz vermelha com forma circular. Essa forma de apresentar as cantoras refletem suas posições referentes ao gênero - Pablo como um reflexo total da mistura de conceitos clássicos de gênero: identidade, representação e orientação. Preta, uma mistura parcial.
Aliás, Pabllo é o elemento central do video por veicular a mescla de todos os sentidos musicais+visuais+mensagens+ representações sociais - apresentado na chamada do clip com uma vestimenta que é a fusão dos elementos geométricos/cor do clip, e segurando uma longa fita, que demonstra noção de maleabilidade e movimento das representações.
Quando o refrão "Eu falei/ que eu era mais forte agora/ boa sorte!/ Me libertei/ não se importe com o meu decote" é cantado pela primeira vez, ambas as cantoras estão presas em um pano transparente refletindo uma mescla de cores entre o azul e o rosa. A imagem representa o oposto da música, compreendendo que a noção de liberdade, embora seja transparente ainda não se tornou bem sucedida. Aliás, a transparência funciona no clip como a demonstração de algo que não se pode esconder: seja o corpo, a sexualidade e as representações dele.
Sob o fundo branco e com roupas da mesma cor, as cantoras apresentam a solução das representações estanques e binárias: a junção total sob o mesmo espectro. Aqui, o uso de todas as cores aparecem, e ambas as cantoras se divertem ao brincar com elas, dando a entender que é possível "colorir" o gênero com qualquer "cor". Esse momento casa com a repetição do refrão, indicando um segundo momento em que se reflete sobre o poder do próprio gênero e da noção de liberdade. A partir daí, o clip segue para a finalização da mensagem, com a mistura de todas as formas e cores, em uma confluência de imagens de maneira a demonstrar que essas são representações do feminino: ser mulheres é possuir e escolher suas próprias cores e suas próprias formas, remetendo, portanto, a cor e a forma física de Preta, a de Pabllo, passando para a alegoria da paleta de cores. Terminando, assim, com uma belíssima imagem de Pabllo de branco sob luzes vermelhas, evidenciando um indivíduo e seu estado de escolha (mulher).

Depois dessa rica mensagem, nos resta apenas cantar com Preta e Pabllo a frase "não se importe com o meu decote", como hino contra a restrição da liberdade do corpo associado ao feminino. Ela funciona também como alegoria de todos aqueles que não querem ter seus corpos, representações e gostos restritos por outrem. "Agora é minha vez".

Nuestro Silencio

Todas as vezes que fui a Argentina, separei algumas horas para assistir a una película. Dessa vez pude assistir La Cordillera (2017), com Ricardo Darin. Ao sair de cinema, passei a pensar que talvez um (sub) movimento cinematográfico de países em desenvolvimento esteja em curso a pelo menos 5 anos. Isso porque muitos filmes produzidos possuem em comum a mesma abordagem narrativa: Contam uma história aparentemente banal que na realidade serve para refletir sobre problemas estruturais do próprio país. Vejo isso em: A que horas ela volta (BRA, 2015); O som ao redor (BRA, 2012); Aquarius (BRA, 2016); Leviatã (RUS, 2014); La Cordillera (ARG, 2017); Timbuktu (Mauritânia, 2014); Taxi Teerã (IRA, 2015); O ato de matar (Indonésia, 2012), etc. Esse último, um documentário paradigmal, em que assassinos e torturadores representam teatralmente o genocídio praticado por eles (sem saber que estavam sendo alvo de críticas). Em alguma medida esse documentário talvez tenha servido de inspiração para alguns dos filmes desse "movimento".
Ainda que na minha concepção o Cinema mainstream esteja timidamente reavaliando o seu papel de "arte como metodologia de reflexão e questionamento" (Darren Aronofsky, Alfonso Cuarón, Denis Villeneuve parecem encabeçar essa nova fase) - essa onda 3o mundista possui um diferencial: todos (ou pelo menos a maioria) usam o cotidiano como linguagem.

Em La Cordillera, Darín interpreta um presidente recém eleito que precisa lidar com problemas familiares, enquanto atende a uma cúpula latino-americana para assuntos estratégicos. O mote é simples, a mensagem extremamente complexa: o problema que o argentinos possuem em lidar com o silêncio (principalmente em função de um terrível Ditadura Militar). O silêncio da própria pátria diante de seus problemas. O azul do céu em contraste com o branco da neve Andina serve como referência a bandeira argentina, cercada por cordilheiras (problemas) aparentemente intransponíveis. Propositalmente isolado, como que separado para um exame, Darín mostra o caráter dúbio que a pátria causa em seus compatriotas (filhos), entre a dúvida, o respeito e o medo. No final, apesar dos problemas, todos seguem calados, sem direito a memória, direcionados e estagnados em negociatas convenientes ao silêncio daqueles que não possuem voz suficiente para gritar (se rebelar).
Isso te lembra algo? 
Poderia ser o Brasil, pero es uno de nuestros hermanos.

Cinerama


Denis Villeneuve compreende com exatidão o papel das ciências humanas como aquela que dá sentido a experiência dos homens na terra. E em específico o papel do historiador como investigador primordial para essa eterna busca.
Em o Homem Duplicado, um historiador é o próprio objeto de análise, dando a entender que o dificil distanciamento histórico de nosso escopo é um desejo que nunca se completa - o desejamos, porque precisamos dele para entender a realidade, porém o queremos distante, pois almejamos vê-lo por completo. Estamos imersos no fluído dos fatos, subjulgados pelos acontecimentos, e a separação entre o real e o aparente é um exercício de sobrevivência. Esse é o fim útil, o principal trabalho das ciências, quaisquer sejam.
Em A chegada, uma belíssima ode a ciência (humana), indica que trabalhamos em prol de compreender o "outro" a partir do diálogo das singularidades. Para isso, precisamos utilizar a nosso favor diversos elementos da cultura, principalmente a linguagem, a memória e o passado para nos fazer entender. E para entender as necessidades do próximo. Esses elementos definem o que somos como humanos e, de maneira geral, define as ciências humanas.
Em Blade Runner 2049 o papel da memória é preponderante. E talvez por isso, para muitos, o filme é tido como chato, cansativo e lento. Ele define exatamente o processo de (re)lembrar, de como uma memória se constrói. E isso é um trabalho longo, cansativo e cotidiano. Se pensamos, logo existimos, a memória relembra a todo momento a própria existência. E nós existimos porque lembramos. Ainda que de maneira difusa, irreal, deturpada, modificada pela imaginação (outro importantíssimo elemento que aparece em todos os filmes, pois é preciso imaginar para conceber algo abstrato, desconhecido), nos definimos pela construção cotidiana do passado e das experiências vividas até aqui. Sejam amores, dores, ressentimentos, alegrias próprias ou o que você (ou outros) escolhe para si.

Feminismo step by step (uh baby!)

Fui convidada por uma aluna do PIBID para falar sobre feminismo em uma escola. A escolha foi baseada em minha trajetória de pesquisas ligadas aos estudos de gênero. Segundo a proposta, meu ponto de vista forneceria uma visão acadêmica/científica sobre o assunto.
Diante de uma considerável platéia de estudantes do Fundamental 2 e do Ensino Médio, perguntei, respondi, brinquei e falei sobre o papel da mulher na sociedade atual. Mencionei que desde a antiguidade até os dias atuais noções sobre controle e violência foram empregadas para lidar com as mulheres. Falei que a luta do feminismo, na realidade são as lutas dos muitos feminismos (negros, indígenas, trans, etc) - mas que todos se baseiam na igualdade de direitos e oportunidades comumente oferecidas aos homens. E que o feminismo anda de mãos dadas com outros movimentos, como o movimento negro e o LGBTQ. Afinal, todos gostariam de andar em paz na rua sem serem incomodados. Apenas gostaríamos de ser.
Apesar da linguagem simplificada e adaptada para a idade dos adolescentes, foi possível constatar como é difícil conversar sobre tema. Isso porque, de maneira geral, há: uma incompreensão conceitual - o que é feminismo?; o desconhecimento de seus sub-grupos, objetivos e lutas; uma confusão entre feminismo e femismo; influências familiares, religiosas, políticas e ideológicas que tendem a corromper a racionalidade do argumento em favor de um pensamento indutivo. Ou de um pensamento que transforma a exceção em regra. Em um só frase: a falta geral de esclarecimento sobre o tema e, acima de tudo, de um debate franco e aberto.
Na síntese, a proposta do feminismo é tocar em temas tabus, difíceis de serem discutidos sem que tenhamos um mínimo de embate. A sexualidade, a representação social e as disputas de poder cultural, econômico e político geram discussões acirradas porque são dogmáticas - foram se estruturando em cima de verdades absolutas. Essas verdades absolutas caem por terra, ao percebermos que, ao olhar para o "outro", talvez seja possível enxergar outras verdades, outros valores, outras concepções, diferentes das nossas. E que lidar com o "outro", em um momento de formação de Democracias proto-ditatoriais e da higienização do "diferente", é um desafio.
Pensar sobre feminismo é relativamente "simples". Requer apenas esclarecimento e reflexão sobre uma demada social, a partir da pergunta que não quer ser calada:
O que é ser mulher? O que é se identificar com o feminino?
Agora imagine as discussões sobre Gênero?! Aí sim as coisas ficariam complicadas. Pois se o feminismo é um tema complexo, o gênero é 10x mais. Não só porque envolve a relação e tensões entre homens e mulheres, mas porque questionaríamos: O que é ser homem? O que é virilidade? O que é masculinidade? Esses também são temas tabus não questionáveis. O desconhecimento, que já é grande, se ampliaria, abrindo um fosso entre eu e alunos. Até porque esses meninos e meninas estão muito distantes das discussões com as quais me envolvo. Nunca ouviram falar de Joan Scott, Judith Butler, Rachel Soihet, Margeret Rago, Simone de Beauvoir. Nem precisam. Eles precisam mesmo é saber interpretar a realidade a sua volta, e que o feminismo, na sua concepção mais básica, pode ser uma das chaves de interpretação.
Esses meninos e meninas ainda não conseguem olhar para o lado, e ver que existe um quintal muito além do muro que separa o respeito e a compreensão da ignorância e do desconhecimento. Que as discussões sobre feminismo são somente o começo dos questionamentos sobre a ordem atual do mundo. Quando se derem conta, as placas e camisas escritas "Bolsonaro 2018" que vi serem exibidas com orgulho durante minha palestra prontamente deixarão de existir.

Outlander e a violência contra o corpo masculino


Assistir ao capítulo de uma série que apresentava sequências de tortura psicológica e física de um homem por outro homem, incluindo estupros, fez com que meu marido se assustasse. Repetidas vezes ele pediu para que eu parasse de assistir as cenas. Entendi a causa do desconforto, mas continuei assistindo, pois estas faziam parte do enredo e compreensão da história. Porém, não deixei de lado a questão e respondi: "Entendo o sofrimento, é horrível. Mas o cinema e as artes nunca tiveram problemas em representar estupros femininos..."
Aqui vai um aviso, e ele não é sobre o estupro, mas sobre a naturalização da violência do corpo. Não existe nada que defenda a violação física de qualquer humano sem o seu consentimento. Porém, entendam: a representação do estupro feminino faz parte da estruturação social do mundo ocidental. Está inscrita mitologicamente no Rapto de Perséfone, incutida em leis culturais, cívicas e religiosas que orientam a posse física do corpo feminino independente da vontade/necessidade, desde tempos imemoriais.
Eles representam um aviso, uma verdade, uma condição. Replicada ao longo dos séculos de forma a naturalizar comportamentos, chegou até os dias atuais como metodologia de docilização dos corpos (a partir de estruturas de organização social como a família, a igreja, e o Estado) muito antes que Foucault nos contasse sobre a disciplinação do corpo social na passagem do mundo moderno para o contemporâneo.
O corpo feminino nasce sobre o espectro da disciplina. E essa disciplina se formaliza a partir de violências gráficas: estupros, fogueiras, mortes, machucados. O passado de punição e vigilância ainda não passou. Acho que o corpo feminino, em certa medida, ainda reside no limbo entre a modernidade e a contemporaneidade, pois ainda não sabemos quem nasceu primeiro: a vigilância ou a punição. E ainda que nossos corpos estejam presos pelo passado estrutural, nossas vidas atuais compreendem a realidade de que tal relação se apresenta acima de tudo como uma simbiose.
A violência ao corpo masculino obedece a outros critérios e objetivos (que podem até ser discutidos aqui, em outro momento), e geralmente estão relacionados a um vexamento de matriz politico-social do que propriamente físico. Porém, quando violências associadas ao corpo feminino são aplicadas ao corpo masculino, eis o surgimento do horror causado pelo desconhecimento e desconforto físico: A reação do meu marido.
A possibilidade de chocar e desnaturalizar a visão da violência aplicada aos corpos talvez seja necessária. Não para causar mais violência, mas para gerar o fio de entendimento que levará a compreensão de quais elementos a matriz social das diferenças nos coloca em lados desiguais.

quinta-feira, março 02, 2017

Conto de Fadas

Lendo sobre tratados de casamento do período clássico grego, me deparo com o argumento de que o período pré nupcial, de arranjos e contratos feitos entre famílias, seria, na realidade, uma espécie de concurso de beleza. As candidatas são ranqueadas (dependendo dos costumes da cidade ou região) por: 1) "recatada e dor lar" 2) beleza física e disposições para gerar filhos belos e fortes para as poleis. Esse trato tem como comparação a competição mitológica daquela que era a "mais bela": titulo revindicado pelas deusas Afrodite, Hera e Athená. O pomo da discórdia entre as deusas (uma maça de ouro deixada por Éris, a discórdia) trata de contar que a beleza e a vaidade apresentam um paradoxo: fascinam e, ao mesmo tempo, causam fúria e temor. E mais: elas precisam ser passíveis de controle, pois a beleza em excesso causa estragos (Afrodite vence a disputa e como presente ao julgamento de Páris, lhe oferece a mais bela mortal, Helena de Tróia - treta famosa de A Ilíada)

Em pleno século XXI percebo como as redes sociais funcionam como os novos instrumentos de ranqueamento da "beleza feminina", feito geralmente através da imagem de atributos físicos. Um verdadeiro concurso de beleza, fruto não só do sexismo que nos coloca em uma posição de competidores por likes e shares, mas também como "freio de burro", que hora trava e hora alavanca a busca incansável pela beleza imortal. Uma vitrine 24h no ar, um zoológico dinâmico e intermitente de disputas invisíveis que ultrapassam a ideia de relacionamento/casamento e tende a busca pela infinito e a imortalidade, em um mecanismo tão paradoxal quanto a própria ideia (ideal) de beleza, a internet - permanente e ao mesmo tempo fugaz. 
Estaríamos assim tão longe dos mitos?
A cada foto/video, beijos, caras e bocas, poses, roupas, closes: sintomas que assinalam não só a superação da marca deixada por um precedente, mas também apresentam o estado de transição da "sociedade da escrita" para o estabelecimento da "sociedade da imagem", em que a imagem se torna o referencial base de expressão humana. Dessa maneira, a beleza não deve chocar os cânones do gênero, mas sim ultrapassa-los com novas representações. Isso precisa acontecer através do controle da imagem, do que é permitido (ou não) mostrar e como mostrar, de quem deve ver, vencer e de quem deve perder e assistir passivo o ranking da imortalidade. Da beleza do porvir.

"Cada mergulho é um flash", cada imagem é um frame do real. Neste pequeno instante, a beleza é capturada por um dispositivo de seleção e controle social sofisticado, apresentado em 4k, para esconder e selecionar o que deveremos deixar para o que virão.
Espelho espelho meu, quem te controlas sou eu?

Oh o gás!

Coisas aparentemente banais ajudam a pensar coisas não banais, como os mecanismos de funcionamento de metodologias históricas com as quais o pesquisador é obrigado a conviver. Pois bem, estava eu rindo como uma hiena vendo o vídeo dos funcionários da Ultragaz dançando o funk "Oh o gás". 
De repente me peguei pensando "fizeram um funk com a irritante música do gás, transformando os gritos igualmente irritantes dos vendedores em uma coisa engraçada". Isso me lembrou Michel de Certeau e sua famosa proposição - táticas X estratégias, pois o funk durante muito tempo (e talvez até hoje, porém com menos intensidade) foi o simbolo da contracultura Carioca. O funk pode ser visto como uma das táticas dos "mais fracos" (dos homens das periferias, dos despossuídos de poder) contra a estratégia institucionalizada de gravadoras e da MPB, do rock, do pop, etc.
Uhhhhh... Nesse caso, o funk funcionaria como uma dulpa tática: como contracultura e como resposta pública a imposição pública de um bem de consumo em forma de sátira ("vamos sacanear aqueles caras que fazem a gente ouvir todos os dias a música do caminhão de gás"). O que é do povo, ao povo pertence.
Não demorou muito e veio a resposta de quem está no comando das instituições (o Gás): "Ahm é? Bora usar isso a nosso favor!" 
E assim surge a aglutinação da tática pela estratégia. Aí surge o vídeo dos funcionários da Ultragaz dançando, zuando e nem aí pra isso (aháaaa tem funcionário zuando e não dando bola, olha a tática aí minha gente!)

Provavelmente haverá uma reconfiguração de táticas e estratégias nesse duelo entre o Povo e o Gás. A aglutinação estratégica desarma as táticas, pois ri de si mesma com a risada de quem ri de você. Qual o próximo passo do Povo? Novas táticas, provavelmente. Táticas que ridicularizam, debocham, escarnam ou ignoram tudo isso... em um inception eterno na guerra entre táticas e estratégias.
Pensem em outros exemplos, como a "cultura Nerd". Ser Nerd na década de 1980 e 1990 não é o mesmo que ser Nerd em 2017.
Poque será?

Gente, falei isso tudo por causa do gás. Que coisa maluca.
De cientista maluca (só que não).

Perfect Illusion

O halftime show do superbowl 2017 com a Lady Gaga foi maravilhoso. Não só pela apresentação, mas principalmente pela mensagem nele contida. Como Beyoncé fez em apenas 5 minutos no Superbowl 2016, em que convocava o público a Formação (formation, música) de um Manifesto (a favor da feminismo e da negritude através de seu álbum, Lemonade), Lady Gaga parece ter montado um repertório em que cada música constitui um fragmento discursivo sobre a "terra da liberdade". A coesão desse conjunto foi mirar sobre o futuro dessa terra, e suas roupas futurísticas apresentam a iconografia da esperança (e porque não, do medo do desconhecido - brilhando no escuro). Na terra da liberdade, é preciso buscar o futuro dado o presente potencialmente tenebroso, levantar a cabeça e olhar para as estrelas da própria bandeira que espelham o céu, que buscam para o "além" do momento vivido melhores perspectivas. E do alto do Estádio, sobre as luzes das estrelas e dos fogos, Lady Gaga mergulha na própria mensagem. Porém antes da "batalha intergalática", uma mensagem de bravura e coragem "através da noite, guiados pelas luzes do céu" para unir uma terra, com liberdade e justiça para todos.
E assim, a batalha começa na terra. Do alto de uma Torre de aço retorcido (como se a realidade aparentasse um futuro distópico) Gaga canta que suas táticas de sobrevivência não são aparentes, "you can´t read my poker face". Ela irá jogar com todas suas armas. E uma das armas é a verdade, a realidade contra um suposto ideal (de comportamento, religiosidade, sexualidade, beleza e do feminino). E principalmente conta o machismo, afinal é uma mulher cantando! Todos nascemos como nascemos, "I'm beautiful in my way, 'cause god makes no mistakes, I'm on the right track baby, I was born this way".
Dado o recado, ela não irá atender a chamados que calem sua voz. Ela sequer quer ouvi-los pois naquela noite o objetivo era dançar (e não odiar) - "stop calling, stop calling I don´t wanna think anymore..." porque Gaga só quer dançar ("just dance"), e tudo ficará bem (pelo menos naquele momento). Aliás, lembremos o famoso clipe de Telephone, que Gaga faz com Beyoncé: a trama era de vingança; o objeto, homens e a solução, veneno. Ali Gaga e Beyoncé já se manifestavam: o machismo engolirá seu próprio veneno.
Após dançar e se divertir, a realidade do momento vivido chega com luzes amarelas e alaranjadas (entre a escuridão e a constrição), calada e com uma intonação melancólica. Nesse momento a mensagem é direta, integral e provavelmente pessoal: O atual momento lhe deu mil motivos para ir embora, mas ela só precisa de um bom motivo para permanecer (When I bow down to pray/ I try to make the worst seem better/ Lord, show me the way/ To cut through all his worn out leather/ I've got a hundred million reasons to walk away/ Baby, I just need one good one to stay). E esse motivo é a luta: permanecer. Resistir. Lutar. Vencer, pois todos (a partir de Lady Gaga) foram pegos em um romance ruim ("caught in a bad romance").
Nesse momento, sua roupa se transforma em uma modulação gráfica do uniforme de futebol americano e enfim, chegamos ao duelo final (a mensagem final/ a final do superbowl). 
A mensagem desenhada, entre a melancolia, a alegria, a convocação é realmente a vingança. Ela quer a vingança de todos aqueles que foram pegos desprevenidos, enganados por uma péssima escolha, por uma relação ruim (expressa por xenofóbicos, machistas, racistas? Trump? Provavelmente). E a vingança é justamente triunfar sobre o(s) causador(es) desse mal, desejando que ele(s) expurgue(m) o que possui(em) de pior, pois somente conhecendo os defeitos do(s) oponente(s) é possível combate-lo(s). E a formula da vingança de Gaga é simples e soa como um desafio cantado, e ao mesmo tempo uma retórica explicativa do momento ( direcionada especificamente para Donald Trump): "Mostre quem você realmente é", "conhecemos o seu blefe", "pare de chamar a atenção", "dê-nos um bom motivo para acreditar" e a mensagem mais irônica e malcriada de todas: "dê o seu pior".

Vamos jogar? A bola está com Gaga. Touchdown.

Carnavale

Interessante ver que o carnaval nos últimos anos tem apresentado um novo módulo para o conceito "fantasia": A fantasia interpretada. Não duvido que esse carácter conceitual, de alguma maneira, sempre fez parte do conceito total, visto que tal é a expressão de interação social da vestimenta, na sua relação com o "outro" - como vemos no teatro, filmes, novelas e séries. Apenas percebo que é cada vez mais comum descolar a ideia de vestimenta da interpretação de um ato icônico seja ele "vexatório", "engraçado" ou "empoderador". O importante é passar a interpretação da mensagem (já conhecida) ao receptor tal como um ator (atriz).
Passeando pelas ruas vi interpretações, sem qualquer aviso prévio, de músicas e memes da moda. Faz sentido, eles são fáceis de decorar. Do nada, ouço alguém gritar "Bonito, que bonito! Que cena mais linda será que eu to atrapalhando o casalzinho aí..." (trecho da música "50 reais" de Naiara Azevedo). Logo um pequeno teatro é encenado com pessoas cantando a música ao mesmo tempo em que a interpretavam. Muitos foliões não estavam especialmente vestidos "a caráter" (ainda que houvesse pessoas vestidas simbolizando o resumo da música - segurando notas de 50 reais, com vestidos de noivas, maridos e amantes). Eis o bacana: reconhecermos a interpretação sem os símbolos de seu significante, e entendemos a mensagem. A fantasia se transforma na pura interpretação, na inventividade, na criatividade do receptor para fazer sentido. O receptor é a fantasia do mensageiro. E o mensageiro a fantasia do receptor.
E assim, muitos passavam pelas ruas interpretando outros momentos icônicos da nossa recente histórico de memes e videos da internet, como o BIRL de Kleber BamBam; a senhora correndo ao tentar ser entrevistada após bater ponto e sair do trabalho ("senhora, senhora... volta aqui senhora!"); a dança do gás; pessoas segurando barras ("essa barra que é gostar de você", trecho da música do Raça Negra); O "esquema" de relacionamento cantada por Anitta, Wesley Safadão e Nego do Borel com grupos de caminhantes cantando para os transeuntes "você pode ser, então, um pedacinho do meu esquema".

Enfim. Desses dias de delírio, apenas tenho a certeza de que o Carnaval é o teatro da vida interpretado incessantemente pelas ruas de todo o Brasil sem qualquer métrica, ensaio ou palco. Uma interpretação da vida como ela é, em que fingimos tão completamente, que fingimos que somos atores do palco que deveras vivemos.

terça-feira, setembro 06, 2016

"Fulana, tenha calma".


Mas você não está nervosa. Sequer irritada. Remotamente perturbada. Ou aparenta qualquer expressão facial que demostre isso.


Parece academicismo pensar em teóricos e filósofos todos os dias na fila do pão, mas quando reflito sobre essa fala me vem a cabeça Foucault e o processo de docilização do corpo social. Ainda que não tenha abordado a perspectiva do cotidiano de maneira direta, ele ajuda a pensar os dispositivos de controle e poder que nos cercam. E como eles são sutis, invisíveis, disfarçados, faceiros. Delicados como uma sugestão, eficazes na mensagem imperativa, entre a pena, o cuidado e a força.

Assim parece, pois quando mulheres, negros, indígenas, minorias, etc. são qualificados negativamente como frágeis, incultos, ignorantes, são imediatamente rebaixados e redimensionados a categoria a ser controlada (ao dispor de tais mecanismos), pois conter um "corpo" é deixar/impedir que "outro" avance, tome partido e decisões.



Fulana, tenha calma. Que calma é essa? De onde vem a calma, como diria a música? A calma é um constructo implícito de controle? Quem pede calma já dá a tônica da ação.
Contenha-se antes de ser contido.

Algoritmos Nostálgicos

Não sou lá muito fã de séries/novelas. Acho cansativo me fidelizar a determinado conteúdo por horas, seja por indicação de amigos ou por possuir temática interessante. O interesse surge por diferentes motivos: a necessidade de refletir sobre certo tema; um escape divertido; um romance água com açúcar pra adoçar a vida; uma analise pedagógica e critica da ação humana. Independente da língua ou cultura, gosto de assistir a histórias. Isso me fez ver conteúdos extremamente diversificados como: "W" (Coreia do Sul), "Sherlock" (Inglaterra), "Lalola" (Argentina), "Além do tempo" (Brasil), "Mr. Robot" (EUA), "As mil e uma noites" (Turquia), "Windeck" (Angola), "Danger 5" (Austrália), etc.

Nas últimas semanas, dei a mão a palmatória e decidi assistir duas indicações de series. E não foi preciso assisti-las até o fim para me dar conta de que essas, entre outras, baseadas em algorítimos produzidas por plataformas de video on demand, muitas vezes preveem apenas repetições de tendências, não necessariamente inovações do ponto de vista de contação de história. O tal "risco zero" de perdas de audiências levou milhares de indivíduos aos cinemas para ver filmes como "Star Wars", "Jurassic Park" e tantos outros a ver "Stranger Things" e "The Get Down" (as séries que assisti), catapultando-os a fenômenos de uma reprodução que leva ao público reflexões, história e conteúdos condensados por músicas marcantes, referências iconográficas explicitas e inserções pontuais a temas da atualidade. Vistos de perto, se enquadram no terreno seguro da homenagem, entre o reboot, a nostalgia, a relevância e os gostos de determinadas faixas de audiência.

Pego como exemplo "Stranger Things", que talvez seja mais década de 1980 que a própria década, com crianças que pareciam ter saído de "Os Goonies" e "Conta Comigo"; com a figura emblemática do professor de bigode e o policial canastrão. Parece uma daquelas histórias entre o terror e a fantasia de John Carpenter e Steven Spielberg, dos filmes de estética high school a la John Hughes. Até a imagem marcante de Molly Ringwald aparece encarnada na personagem de Barbara Holland, se misturando ao som memorável de The Clash, Toto e Joy Division.
Sobre referências filmicas, Tarantino é mestre em mistura-las de maneira inteligente e instigante. Ele sabe exatamente como fazer filmes sobre filmes. Porém até ele parece ter cansado da técnica, decidindo aprofundar temáticas que antes não eram contempladas, dando agora apenas leves e certeiras pinceladas de influências cinematográficas em suas películas. 
Não me levem a mal, os conteúdos citados são ótimos. Apenas não sei quanto tempo a tendência algorítmica fidelizadora perdurará, durante quanto tempo a nostalgia e a magia irá funcionar. Durante quanto tempo a Nostalgia será apenas Nostalgia.

Eu já saquei a onda e admito: mal começou e já cansei.
Prefiro mudar de canal e buscar o imprevisível.


sexta-feira, junho 24, 2016

Fontes

As fontes falam, conversam com o pesquisador de diversas maneiras. Um leitura primária dá conta de aspectos superficiais: o que está escrito, como está escrito, para quem, por quem, quando, além do contexto (social, politico, econômico) em que foi produzido. Em uma segunda leitura, o não dito, o que falta ser mencionado, a opção de abordar tal coisa/objeto/pessoa ao invés de outras (que também poderiam ser importantes para o contexto): as ausências, forçadas ou não. Essa ausência inclui também o espaço para falsificações, incongruências, "mentiras", "verdades". A terceira, o momento da descoberta enquanto documento, o seu contexto e sua posterior leitura. E finalmente a quarta, uma ação fluída e sempre constante, que são as variadas (e as variações de) leituras e consumos das representações segundo o tempo, o espaço, a cultura, a vida social, o local de fala, o interesse pelo objeto e seus objetivos de análise.
O facebook é, sem dúvida, um grande documento social a ser explorado em toda a sua complexidade e diversidade. Ele, como fonte digital expressa suas singularidades, mas não deixa de exibir o caráter "clássico" atribuído as fontes: a possível captação e permanência em um espaço, assim como a possibilidade de contar algo, de conversar com o pesquisador. Somos em close caption, a cores, e em movimento um documento: Aqueles que postam fotos, avatares, comentários e pensamentos, aqueles que postam pouco ou quase nada, os que não postam, os que só observam, os que não se incomodam, os que não possuem. E/ou todas as combinações possíveis próprias dessa rede.
Todos possuem algo a dizer, e estão dizendo. Mesmo não dizendo nada.

quinta-feira, junho 02, 2016

Lemonade

Assistindo o clip "Formation" me detive em alguns aspectos técnicos da representação do figurino de Beyoncé: Perpassando todas as cenas, os cabelos da cantora expressam o empoderamento negro, seja com tranças, blacks ou penteados que, de maneira geral, representam (fazem refletir sobre) a iconografia da mulher negra.
O uso do vestido preto com referências estilizadas carrega elementos atemporais da moda negra norte americana que atravessa gerações até os dias atuais. Em frente a porta de uma casa Beyoncé é a figura central no limiar entre o público e o privado: a vestimenta em luto e em luta. Pelo fim do controle masculino que circunda a mulher negra sob o espaço da casa, ela dá um passo a frente e desfoca o passado e os homens. A História a ser contada será centrada na figura feminina. O limite espacial também pode ser analisado como comentário a ação que se desenrolará: o fim do sofrimento e o começo da luta pelos espaços é referendado por homens negros, jovens e idosos.
O uso do vermelho (derivados em traços brancos) em duas cenas: um interna, em um corredor - a meio caminho; em cima de um carro de policia parcialmente submerso. O vermelho na cinematrografia geralmente é associado a morte, ao sangue - derramado, a ser derramado e ao sofrimento. Muitas vezes também é usado para expressar paixão. Ambos parecem fazer sentido nos ambientes citados: O sofrimento de jovens negros é calado/afogado por catástrofes humanas e naturais. A mulher negra vitima de violências há séculos está a meio caminho de deixar a casa que aprisiona e atingir a rua, expressando paixão e temor pela própria vida. A dança é uma expressão dessa liberdade. A roupa é a fusão entre passado e presente.
O uso da vestimenta em tons metalizados/cinza com traços vermelhos e pretos em uma piscina vazia representaria um caminho já traçado, um objetivo a ser atingido: não há como afogar a voz negra e feminina. Ainda que haja traços de violência simbólica (vermelho/preto), uma zona mista é um claro aviso de que as barreiras precisam e serão ultrapassadas: não há água na piscina, não há como deter a luta e a liberdade do corpo da mulher, em continuo movimento de dança e libertação.
O branco (associado a tons pastéis) usado em três cenas remete a conquista da liberdade e a paz (interior ou exterior), tanto em contexto público quanto no privado: Beyoncé abre os braços vestida em peles brancas pela janela de um carro enquanto ele gira: O espaço público de homens/mulheres brancos também é o espaços público de homens/mulheres negras, em liberdade e sem medo. O olhar de Beyoncé é inegável ao expressar o desafio a negação dessa luta/conquista. Na casa, a cantora é mostrada sozinha e rodeada por um grupo de mulheres, vestidas em trajes com elementos amarrados a todas as épocas da história norte americana, com olhares desafiadores frente as conquistas também em espaços internos. Ela é dona de seu próprio espaço. A liberdade da escolha está dada, independente do local em que se configura a presença feminina.
Enquanto um sonho de liberdade é colorido e transparente (representado em uma rápida cena), a realidade é pragmática. Assim o jeans (e suas derivações de lavagens) fecha a galeria iconográfica como roupa e expressão multiuso: com a liberdade em mãos, os usos configurados pelo corpo feminino são múltiplos, variados e não possuem gênero e idade. O jeans é a liberdade per si (a dança também).
Lemonade é um belíssimo manifesto visual e musical sobre feminismo negro, negritude, preconceito, padrões estéticos, violência contra negros, empoderamento social, cultural e financeiro de negros. Um álbum necessário, obrigatório. Um obra de arte fundamental, paradigmal.

quinta-feira, julho 04, 2013

História.


Gostaria de dedicar alguns momentos para comentar sobre um tema que não tem saído de minha cabeça, dado o efeito dos últimos acontecimentos. Não comentarei sobre protestos e suas consequências midiáticas, políticas, econômicas e sociais. Minhas reflexões, ainda que superficiais e imediatas, tentam compreender de que formas os significados da palavra História vem sendo utilizado de maneira sub-reptícia (na sua expressão mais invasiva, quase infiltrada) e quase esgarçada. Esses usos, como consequência provável, levam ou poderiam levar a diversas e pouco aprofundadas noções que tornam a palavra imprecisa, soando muitas vezes como um conceito vazio e murcho de significados das quais ela é associada em meios teóricos. 

A alguns dias atrás, postei no Facebook uma frase em que considerava o uso da palavra História um disfarce hipócrita para a explicação dos acontecimentos atuais. Além de reafirmar aqui minha opinião, adiciono mais um ideia: Além do uso hipócrita, pois usado como disfarce para conter concepções atuais, ela ainda demonstra o profundo desconhecimento do que se entende por História.

Ultimamente tenho visto surgir muitos comentários tais como: "O Brasil está fazendo História!", "Estamos, pela primeira vez em muitos anos, (re)escrevendo a História do Brasil", "Vamos mudar a História do Brasil!"

Peraí, e desde quando alguém deixou de viver neste fluído contínuo, neste espaço-tempo que se chama História? Quer dizer que antes de mobilizações de vulto e demonstrações de indignação éramos seres não históricos?! Só fazemos História quando nos tornamos e nos sentimos importantes? Quando somos percebidos por políticos e meios midiáticos?

A História é produto último do cotidiano. As relações são presididas por gestos comuns, pela rotina. É ela a sua principal produtora e mantenedora e seu principal vínculo de mudança. Não são só 15 minutos de fama não, é mais do que isso! É perceber e identificar que sempre fomos e seremos agentes sociais e que os grandes acontecimentos nascem na tranquilidade do lar e no chão da fábrica. Os 15 minutos passam e a Histórica continua...

Vejamos como olha um Historiador:
Em termos práticos, ao voltarmos os nossos olhos para a História, aquela que aprendemos desde a escola, vemos que ela muitas vezes ao longo dos anos de aprendizagem foi reduto da vitória ou derrota de grandes Homens, Nações e Instituições. Essa visão historicista e pertencente ao século XIX reverbera com força em nossos discursos, não só porque nos reportamos a uma instituição que reflete conceitos básicos, mas porque ela é reduto de um passado de conhecimentos que a partir dali tendem a ser explorados de formar a dar um espetro cada vez mais ampliado de nossa compreensão sobre o mundo.

A escola é de muitas maneiras, uma das expressões básicas do conhecimento sobre o passado. Ela é histórica, mas isso não significa que deve ou precisa permanecer como fim último, visto que a sua própria provadora, a História, vive ao som dos segundos. Assim nos damos conta, ao vermos deslocadas expressões sobre o conceito, que muitas vezes a História que aprendemos não deve estar sujeita só a um tempo, ela deve  acompanhar e estar atenta a todos os movimentos da própria História!
Esse lapso seria fruto do desconhecimento sobre o passado?! Ou seria o não desenvolvimento deste conhecimento para além das obrigações sociais? E mais: Pode possuir raízes na descontinuidade e construções das concepções do que seria História. Essa que é pensada como parte integrante da vida humana, para além das escolas, em meio ao vivemos enquanto estas palavras estão sendo lidos. 

Nossa linguagem sobre o passado (e sobre o presente) é pobre, fruto de uma conscientização socio-histórica igualmente pobre. Isso acontece muitas vezes porque não tornarmos os nossos saberes parte integrante de nossas vidas cotidianas. De acharmos que discutir nossas necessidades comunitárias e seus caracteres econômicos e políticos são coisas de nerds, politizados, esquerdistas e filósofos de botequim. Filosofar no boteco não é besteira! É um exercício social histórico! O exercício histórico não vem sendo objeto de pratica constante por diversas deficiências estruturais e orgânicas a sociedade brasileira, que assumiu a mais de 500 anos um relacionamento paradoxal  com a História. Concepções que são impossíveis de assumir nestas breves palavras, mas que talvez são elevadas a categoria de "indiferenças ideológicas",  por não obedecer a lógicas comuns as necessidades do mundo atual, sendo  incutidas em um vão murcho e amorfo, muitas vezes incoerente, por não saber exatamente do que se trata.

Usar em vão a palavra História para designar um movimento social natural ao nosso estado de relações deixa entrever o quão o papel do historiador é pouco compreendido. Esse posicionamento escamoteia as tentativas exaustivas de tantos cientistas humanos em fazerem perceberem que o nosso objeto de análise é o hoje, espelhado no passado. De que nossas relações varrem o nosso objeto e andam junto com ele, mas que ainda precisa de evitar um contato direto para não ferir o olhar. Porém, que não deixa de olhar e refletir sobre, ainda que seja de maneira cautelosa o suficiente para não ganhar fama de Mãe Diná.

Então, você quer História?! Vá! Mas vá com calma!

Ao inflar e repetir o uso da palavra História preenchendo um vazio de relações que ainda não compreendemos com toda clareza (pois pouco estamos dados ao exercício), estamos fortalecendo para que o seu conceito cada vez mais seja um saco de retalhos desconexos. Em que qualquer palavra é usada para explicar ou dar sentido a movimentos históricos, pois pode ser entendido como um movimento de homens por mudanças. Viu como soa genérico e não explica nada? Além de estar destituído de toda a carga de expressões e de possíveis concepções imbuídas? Não podemos deixar que a História se torne só mais um saco semiótico indefinido, quando ela pode ser a expressão viva, consciente e com uma posição definida enquanto meio de conhecimento específico que pensa sobre a complexidade da expressão humana em plena ação seja no passado ou no presente.

E aí eu te pergunto: Você sabe o que é História?


Menina de Pano fazendo História, desde o retalho à casa de bonecas.

quarta-feira, agosto 15, 2012

Horário de Brasília, 36 graus Celsius.


Dizem os médicos que febre é sintoma de infecção. Eu estava com isso há uns tempos atrás, sabe. Fiquei doente, mas doente de um jeito diferente. O rosto estava perfeito, o corpo com saúde invejável, sem manchas esquisitas, os dentes estavam brancos. Mas lá no fundo do rosto, no canto escuro do corpo, na placa metálica da obturação, a doença se manifestava. Era esquisito. Um fraqueza, uma moleza, uma tristeza. Quem olhasse com atenção, e percebia a doença, ficava mais triste ainda. Era quase contagioso... mas uma contaminação que tinha senha na entrada, código de barras e uma porção de outros benefícios compartilhados.  Enfim, uma infecção que não saia de jeito nenhum. Isso durou um bocado, mais de um ano. Sabe aqueles ventos fortes que te pegam de surpresa e te deixam resfriado e com o nariz escorrendo durante dias? Pois bem, era uma coisa dessas que parece que durava anos. No grau das doenças, as infecções eram aparentadas, tipo... primas distantes.

Um dia eu decidi que ia me livrar dessa infecção. Não aguentava mais! A obturação já estava velha, o canto do corpo coçando. Assim não podia ficar. Comecei a ouvir música clássica, admirar galãs de foto novelas, tomar água de coco, ler revistas de moda. O projeto Xô Satanás era intenso, porque a Casa do Senhor estava interessada em outras companhias não tão más assim. Pulei, dancei, dei cambalhota, cantei, desenhei sol no chão para fazer a chuva parar e a infecção sair.
Eis que um dia, ela quis me deixar... Olhei no relógio. Eram 7 horas da noite, ninguém em casa. Ela chegou. Febre, febre, febrão. Ela estava querendo ir embora. E eu fiquei triste, acredita?! A infecção ia embora, me deixar sozinha... eu queria mesmo aquilo? Estava preparada ou não? Não tinha importância, ela tinha que sair. Remédio tomei, menina... a cama estava molhada de suor. Banho frio, água gelada... 10 horas da noite, horário de Brasília, 36 Graus Celsius. 

UFA! Acabou.

Pensa que acabou? Náda, ó... aquela era só a primeira parte. Mais tarde eu entendi que tinha que ser assim. Uma infecção de um ano não sai assim, sem mais nem menos. Né verdade? Sai em suaves prestações, sem a gente sentir no bolso. A primeira parcela tinha sido liquidada, a segunda foi cobrada alguns meses depois. Sabe como é, cada coisa de uma vez.

Muito serelepe, na condição de achar que a infecção tinha acabado, comecei a sentir um comichão bom perto do peito. Aqui, aqui desse lado aqui. Ai, que delicia. Fazia tempos que eu não sentia isso esses comichões bons. Aliás, acho que nunca tinha sentido aquilo antes. Os outros comichões batiam igual tambor, muito rápido, tão rápido que vou te ser sincera... as vezes incomodavam. Esse era diferente. Era... era um tratado de paz. Era calmo. Era quase como se fosse de outro mundo, quase divino. Era tão bom que eu não queria deixar de sentir. Ai pensei: Quero isso pra mim! Fui lá e pimba, decidi que seria permanente.

Ganhei uma febre de presente! Engraçado. Dessa vez durou o dia inteiro. Havia chegado o Adeus final, eu senti. A infecção não queria assinar o tratado de paz, decidiu então retirar suas tropas de plantão. 
A noite foi longa. Que batalha para ocupar posições estratégicas! Tudo muito bem pensado, entende? Coisa de gente inteligente, aquilo não era pra qualquer um não!

No outro dia acordei, e o horário de Brasília até se espantou dos modestos 35,5 graus Celsius. Ele estava pensando que iria dar mais... afinal, a noite foi de festa. Só sei que abri o armário, coloquei o óculos de sol e fui ver os pássaros lá fora. O comichão afagou meu peito e fez uma marquinha vermelha na minha pele. Me deu bom dia, passou pela porta e entrou na minha casa.

Acredita que continua aqui até hoje? Ainda bem.


Menina de pano, pano de Menina.